Entenda o que a ciência realmente diz sobre vitamina D, filtros solares e exposição solar segura.
Uso de proteção solar: entre benefícios do sol, mitos e escolhas conscientes
Os primeiros protetores solares surgiram no mercado nos anos 1930, mas no Brasil começaram a ficar populares apenas em meados da década de 1980. De lá para cá, muita pesquisa e investimento aumentaram a qualidade dos produtos. Não há dúvidas de que eles protegem a pele dos efeitos da radiação solar, mas então por que cresce um movimento contrário ao seu uso?
Nas redes sociais, discussões sob hashtags como #NoSunscreen vêm ganhando espaço. Grupos questionam a segurança dos produtos e defendem que os danos do uso seriam maiores do que os da própria exposição ao sol. Neste artigo, a proposta não é ignorar essas discussões, mas analisá-las com base no que hoje está estabelecido pela ciência.
O sol é necessário, e isso não está em debate
Antes de qualquer polêmica, vale reforçar um ponto essencial: o sol é benéfico à vida. Quando a exposição ocorre de forma equilibrada, o organismo humano responde positivamente:
- ativa a produção de vitamina D, importante para ossos, dentes e função muscular;
- fortalece o sistema imunobiológico, ajudando na modulação inflamatória;
- aumenta os níveis de serotonina, contribuindo para o humor e bem-estar;
- beneficia a saúde cardiovascular, com liberação de óxido nítrico na pele;
- pode contribuir para a regulação metabólica, segundo estudos observacionais.
Mas os benefícios dependem de exposição consciente. É justamente nesse ponto que entram os produtos de proteção solar — não como antagonistas do sol, mas como aliados de uma relação mais segura com ele.
A radiação solar e os riscos reais para a pele
Grande parte da exposição solar acontece no cotidiano, não apenas em momentos de lazer. No Brasil, o câncer de pele é o tipo mais frequente, representando parcela significativa dos diagnósticos oncológicos. A Organização Mundial da Saúde aponta a radiação ultravioleta como um dos principais fatores associados ao melanoma.
Recentemente, o protetor solar FPS 50+ foi incluído na Lista de Medicamentos Essenciais da OMS, reforçando seu papel preventivo. A organização também lançou o aplicativo SunSmart Global UV, que orienta medidas de proteção conforme o nível de radiação.
Mas afinal, o que argumentam aqueles que são contrários ao uso dos protetores solares? #NoSunscreen
Entre as principais alegações, uma das mais comuns é a ideia de que o uso de proteção solar impediria os benefícios naturais do sol — especialmente a produção de vitamina D.
Embora o FPS reduza parte da radiação UVB, responsável pela síntese dessa vitamina, o bloqueio não é absoluto. Mesmo filtros com FPS 30 não eliminam totalmente o UVB. Além disso, na prática do dia a dia:
- a aplicação costuma ser menor do que o recomendado;
- áreas do corpo permanecem expostas;
- pequenas exposições repetidas já estimulam a produção de vitamina D.
Estudos mostram que usuários regulares de protetor solar não apresentam, em média, níveis mais baixos dessa vitamina quando comparados a não usuários. A deficiência está mais associada a fatores como rotina predominantemente indoor, idade, fototipo e condições clínicas específicas.
Protetores solares falsificados e a crise de confiança
Em 2025, um escândalo na Austrália levou fabricantes a suspenderem vendas após testes identificarem produtos que não entregavam o FPS prometido. Episódios como esse aumentam a desconfiança pública e alimentam debates online.
Dermatologistas, no entanto, consideram esses casos pontuais e reforçam a importância de adquirir produtos registrados em órgãos regulatórios.
Absorção de substâncias químicas: o que a ciência realmente mostrou
Em 2019, estudos avaliados pelo FDA analisaram a absorção sistêmica de alguns filtros químicos, como oxibenzona e avobenzona. Os resultados mostraram concentrações sanguíneas detectáveis após uso intenso, o que gerou preocupação.
Mas é importante diferenciar presença no organismo de risco clínico comprovado. Até o momento, não há evidência de danos hormonais severos ou aumento de câncer associados às concentrações aprovadas. Por isso, as autoridades regulatórias continuam recomendando o uso de protetor solar como medida preventiva.
O que dizem ANVISA e Sociedade Brasileira de Dermatologia
No Brasil, a Sociedade Brasileira de Dermatologia e a ANVISA afirmam que os protetores solares registrados são seguros quando utilizados conforme orientação. A absorção sistêmica detectada em estudos não justifica abandonar a fotoproteção.
Filtros solares físicos ou químicos: qual escolher?
A principal diferença entre filtro solar físico e químico está no modo de ação: o físico (ou mineral) reflete os raios UV criando uma barreira na pele, ideal para peles sensíveis e crianças. O químico absorve a radiação, convertendo-a em calor, oferecendo texturas mais leves, ideais para o dia a dia e uso com maquiagem
Principais Diferenças:
- Filtro Solar Físico (Mineral):
Como age: Reflete ou dispersa os raios solares, agindo como um espelho.
Ingredientes: Óxido de zinco e dióxido de titânio.
Ação: Imediata (não precisa esperar para fazer efeito).
Indicado para: Peles sensíveis, com rosácea, crianças, gestantes e pós-procedimentos.
Desvantagens: Pode deixar a pele esbranquiçada e ter textura mais espessa.
- Filtro Solar Químico (Orgânico):
Como age: Absorve a radiação, transformando-a em calor de baixa energia.
Ingredientes: Avobenzona, oxibenzona, octinoxato, octisalato.
Ação: Precisa de 20-30 minutos para agir.
Indicado para: Uso diário, peles oleosas (geralmente mais leve) e antes da maquiagem.
Desvantagens: Maior risco de irritação em peles muito sensíveis.
O maior problema não é o produto, é o modo de usar
Muitas pessoas aplicam protetor solar apenas quando estão na praia ou piscina, esquecendo a exposição cotidiana. Entre os erros mais comuns estão:
- não reaplicar ao longo do dia;
- usar quantidade insuficiente;
- esquecer áreas como mãos, orelhas e pescoço.
A proteção solar funciona melhor quando vira hábito, não exceção.
Vantagens reais da proteção solar
Mais do que evitar queimaduras, a proteção solar contribui para:
- reduzir o risco de câncer de pele;
- prevenir o fotoenvelhecimento precoce;
- diminuir manchas e hiperpigmentação;
- preservar a saúde da pele ao longo do tempo.
Recomendações de uso seguro
- para peles sensíveis e crianças, preferir filtros minerais;
- evitar produtos vencidos;
- observar rótulos em caso de alergias;
- combinar o protetor com roupas, chapéus e busca por sombra.
Conclusão: entre extremos e equilíbrio
O debate atual sobre proteção solar reflete uma sociedade mais atenta à saúde e às escolhas individuais. O sol é essencial, mas a exposição sem cuidado traz riscos conhecidos. O protetor solar não precisa ser visto como inimigo — e sim como uma ferramenta que permite aproveitar os benefícios da luz natural com mais segurança.
Fonte de pesquisa:
Sociedade Brasileria de Dermatologia
Revista Veja, Dezembro 2025


